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domingo, 12 de setembro de 2010

Capítulo Nove


• Capítulo Nove •

O que realmente acontece quando os vampiros resolvem dar uma festa.

O ar cheirava tão bem e não eram as muitas rosas vermelhas que estavam espalhadas por toda parte, enfeitando os salões da Mansão Burns, e não eram as velas que iluminavam os cômodos escuros, dando a sensação de calor e deixando tudo dourado, e não eram os incensos que estavam espalhando sua fumaça nenhum pouco perfumada por aí.
Não, não eram as rosas, não eram as velas, não eram os incensos. Eram os humanos.
Os muitos e muitos humanos.
Eles que cheiravam bem, seu sangue cheirava bem.
E eles eram bonitos, atléticos, com o sangue não afetado por drogas, bebidas ou comidas que fazem mal a saúde.
E eles eram tão jovens, ninguém ali passava dos vinte e cinco e o mais novo devia ter no máximo quinze.
“Mãe, eu vou a uma festa muito maneira na casa de uma garota linda que eu conheci a algumas noites, vou voltar tarde.”
Não, você não voltará tarde. Você nunca voltará.
Surpreso?
Os vampiros adoram surpreender, isso os deixa no controle da situação e eles gostam de estar no comando. Sempre.
E a segunda coisa que os vampiros mais gostam?
É enganar as pessoas. É enganar os humanos.
Você conhece uma pessoa com a aparência incrível, uma beleza sobre-humana, – um vampiro- e o que você jamais acreditaria, acontece:
Essa pessoa convida você para uma festa. Uma festa particular, poucas pessoas, guarde segredo. Você irá adorar. Eu estarei lá.
Logo que escurece, um carro aparece a sua porta, buzina, você entra e percebe que os vidros são muito escuros, você não consegue enxergar nada que está do lado de fora, então você não sabe o caminho que está pegando.
A adrenalina faz com que seu sangue se torne ainda mais desejoso. Você também não sabe disso.
Você acha isso emocionante. Vai valer a pena, você lembra a si mesmo quando uma pontinha de medo faz com que você queria ligar para alguém pra avisar onde está indo, – mesmo sem saber realmente pra onde você está indo – e você desiste. Guarde segredo. Essas palavras estão cravadas na sua mente e ficam se repetindo.
Você não se lembra o número de ninguém.
Para que iria ligar mesmo?
Então a porta do carro se abre, você desce vários andares dentro de um elevador, você está vendado, está suando por antecipação, você não sabe, mas isso faz com que todo e qualquer vampiro queira conhecer você o mais rápido possível.
O elevador pára. Alguém te puxa pela mão, você ri bobamente enquanto anda por muitos metros, quilômetros talvez?
Você está cansado, está pensando nos seus sapatos novos, está querendo chegar logo, pergunta se falta muito, a pessoa que está te guiando ri e não responde.
Você sente que o ar aqui embaixo é mais rarefeito e que está muito quente, por isso quase cai de joelhos e agradece aos deuses quando entra em algum lugar com ar condicionado.
Cheiro de rosas. Velas talvez. Incensos?
Risadas, conversas, música tocando ao fundo.
Jazz dos anos trinta?
A festa parece estar animada, você quer tirar a venda, te impedem e sussurram em seu ouvido para ter calma. Vai valer a pena. Os pêlos da sua nuca se arrepiam, se sente sendo medido, observado, comparado, cheirado?
Antes que você possa se sentir assustado, uma taça aparece em sua mão, você bebe o liquido gelado tudo de uma vez sem se preocupar que possam estar te drogando.
A venda some.
Você vê o lugar mais bonito que já viu na vida.
Outra coisa que você não sabe: esse é o último lugar que você vai ver na vida.
Pessoas bonitas como aquelas que aparecem nas revistas estão por todo o lugar, mas aqui ninguém foi “ajeitado” por programas de computador, eles são de carne e osso, você quer tocá-los, quer chegar mais perto, você quer que eles vejam você, você quer dar tudo que é seu para eles... Seu corpo, sua alma, seu sangue...
O mundo a partir de agora se transforma em uma névoa.
E não foi a bebida, ela não estava batizada, vampiros gostam do sangue o mais puro possível e um pouco de champanhe só adoça aquilo que já é doce.
São seus nervos, seus hormônios, é a luxuria, a gula, a avareza, você quer cometer muitos pecados e de todas as maneiras possíveis, você quer tudo e quer agora!
E o desejo está deixando você tonto.
Tem uma mulher beijando o pescoço de um cara um canto, ele está anestesiado de prazer, você não sabe que ela não está beijando e sim sugando o sangue dele, e você nem repara que a cada segundo ele fica mais pálido.
Você não repara em mais nada porque agora você está sendo amarrado em uma mesa e você está sorrindo.
O mundo é tão bonito, sabia?
Não, ele não é. Você sabia disso meia hora atrás, agora você não lembra.
Sua camiseta não existe mais. Onde ela foi parar? Isso importa? Você acha que tem que importar, mas não se lembra por que.
A pessoa mais linda que você já conheceu beija sua boca, chupa sua língua e morde seus lábios e agora não importa mais se o que você gosta é de homem ou de mulher, você quer mais disso, muito mais.
Outra pessoa beija o seu pulso acelerado e outra passa as unhas pelo seu peito. Arde muito, você nem liga. Essa mesma pessoa lambe o lugar em que te arranhou enquanto a que te beijou beija seu pescoço, está queimando, como se ela estivesse raspando facas afiadas sob sua pele. São os dentes dela, dentes de vampiro. É claro que você também não sabe disso.
A pessoa que beijou seu pulso morde você bem ali, no início dói muito, muito mesmo, mas logo você sente o mundo girar, e a endorfina do seu corpo é liberada e você já não sente mais nada, apenas uma sensação maravilhosa, melhor que qualquer orgasmo que já teve na vida.
Na verdade é como se você fosse uma garota perdendo a virgindade, dói, mas logo passa, e você sabe que uma coisa muito boa está por vir.
No seu caso a melhor coisa que pode vir é morte e meu bem, você não sabe disso, não mesmo, mas esta já está chegando,logo, logo.
Aquele que estava beijando seu pescoço resolve parar de usar os dentes para te arranhar e morde de verdade, rasgando sua pele e suga seu sangue, sua vida.
E você morre com um sorriso no rosto.
É isso que acontece com você, humano, quando você vem a uma festa de vampiros.
Tenho convites aqui, você quer? Você não acha que vale a pena?

E a dois metros do garoto de quinze anos que acaba de morrer, está Debora com seu vestido longo, com seu pescoço a mostra, com sua garganta doendo e com a inveja corroendo sua alma.
Ela queria o sangue do garoto.
Ela queria o sangue de qualquer um dos cem humanos que estavam por ali, mas mesmo assim ela sente o estômago embrulhar.
Isso é errado. Isso é errado. Isso é tão errado.                                         
E mesmo assim ela quer, ela quer participar do errado porque parece certo.

E a cinco metros de Debora, está Marcus analisando suas expressões: repugnância, desejo, sede, incerteza, desejo, sede, sede, desejo...
Ela quer fazer o que todo mundo está fazendo, ele sabe disso, então porque ela simplesmente não faz?
Ela está esperando que alguém a convide?
Bom, esse alguém não será ele.

E a sete metros de Marcus, está Viktor com a humana de sangue mais doce, de pele mais macia, de corpo mais bonito da festa em seus braços e entre seus dentes.
Sempre o melhor para Viktor. Sempre o melhor para o Líder.

Debora se sente claustrofóbica, o ar está muito quente, sua garganta está queimando de sede, a pele pinica, ela quer beber o sangue de alguém.
Mas a consciência não deixa.
Sua humanidade não permite.
Então ela sai correndo, sem olhar para trás, esbarrando em vampiros famintos e em humanos sorridentes, ela foge da sede, da perda de sua alma, ela foge de si mesma.

Marcus a segue, desata o nó de sua gravata enquanto corre, esbarrando em vampiros saciados e em humanos mortos.

Viktor suga a última gota de sangue do corpo de Bianca, uma estudante de dezessete anos que nunca mais voltará para casa.

A festa falta muito para acabar.

Debora não quer saber como termina.

Marcus não deixará que ela veja mais nada disso, ele vai salvá-la.

Viktor procura outra presa, ou eu deveria dizer pessoa? Ou vice e versa?
Isso importa?
Não enquanto a festa durar, não enquanto a sede existir e humanos estiverem ali para saciá-la.

A festa falta muito para acabar.

Capítulo Oito


• Capítulo Oito •


O tempo passou de uma maneira desigual, Marcus tinha razão, o tempo passa de maneira diferente para aqueles que têm todo o tempo do mundo, para aqueles que têm a eternidade pela frente...
Eternidade... É, isso ainda difícil para Debora aceitar, mas bem, quem reclamaria?
E pensar que toda vez que olhasse no espelho, veria o mesmo rosto, as mesmas feições sem rugas...
Quer dizer... Metaforicamente falando, vampiros não têm reflexo no espelho, por mais inacreditável e sem sentido que isso possa aparecer... Bem, ou não...
Não diferenciar mais dia ou noite, para ser sincero, isso não fazia a menor diferença, já que em Burns, sempre é noite... Ah! Os raios solares... Não, Debora não sentia falta deles, talvez só um pouco...
E aquela história de beber sangue? Isso ela já havia superado há muito tempo, para que ficar se remoendo por algo tão... Natural?
Claro, beber sangue não é algo assim tão natural, mas para sua surpresa, para ela se tornou natural depois de um tempo... Certo... E a sede foi um grande incentivo para ela aceitar sua “nova vida”.
Claro, também, que beber sangue direto de uma bolsinha de doação era bem mais suportável para seu estômago do que tirar sangue da  veia de alguém... Mas ela tinha que admitir que essa idéia era muito, muito atraente.
E sim, quando a sede vinha não se imaginava rasgando um saquinho cheio de sangue, se imaginava rasgando pele macia, uma jugular carnuda até seus dentes chegarem ao rio corrente que era o sangue de alguém...
Sua boca encheu de saliva com esse pensamento.

treinamento’ que ficava em um lugar afastado de Burns para que ela aprendesse a lutar, a ser mais rápida, a ser mais ágil, a controlar todos os seus super sentidos que eram agora muito aguçados.
No começo, Debora acreditou que estava ficando louca, - novidade? -  pois ela podia ouvir o som de qualquer coisa e era muita informação em sua cabeça, mas Marcus a ensinou a prestar atenção em apenas aquilo que ela queria ouvir e isso a deixou bastante aliviada.
Seu olfato também era muito potente agora, pois ela podia reconhecer o cheiro de qualquer coisa, mesmo que estivesse a muitos metros de distância, alguns cheiros eram mais chamativos que outros, por exemplo, o cheiro de sangue humano fresco a deixava com a garganta seca e tudo que ela queria era correr até onde esse humano estava, o que Marcus ensinou era que ela tentasse se controlar, para que pudesse ir a cidade à noite sem atacar as pessoas e se isso fosse muito difícil era só ela parar de respirar, os vampiros agüentavam bastante tempo sem ar em seus pulmões, então não respirar parecia a única saída para Debora.
Marcus disse também que com o passar dos anos, essa sua sede iria ser controlada e era ela quem iria ter o controle por si e não a sua sede.
Marcus era um bom professor, era paciente e ria se Debora fizesse as coisas da maneira errada só para deixá-la irritada e depois a demonstrava como queria que ela fizesse.
Mas Marcus também não a dava descanso, ele dizia que quanto mais eles treinassem, mais cedo ela poderia ir a cidade, ver seus amigos e outras pessoas sem demonstrar que era um vampiro e isso era chantagem emocional das mais violentas, Debora sabia, mas deixava se render.
Debora tinha também aulas teóricas, onde Marcus a contava histórias sobre antigos vampiros, a explicava como a população vampira se organizava e quem eram os vampiros mais poderosos e por que.
Debora se sentia estranha a cada nova informação e pensava:
“Como eles vêm se organizando há tantos séculos e nenhum humano sequer desconfiou?”
Às vezes, ela se sentia estúpida, pois quando humana não levava a sério nenhum tipo de história sobrenatural e chamava todas elas de lendas, e quem diria, a lenda agora era ela.
Quão irônico tudo isso era?
Ela fazia um trilhão de perguntas por dia e Marcus respondia a todas elas, mas tinham algumas que ele se esquivava e trocava de assunto rapidamente.
Como:
Por que ele e seu irmão se odeiam?
Por que ele a transformou?
Por que o pai deles escolheu Viktor invés dele?
Por que a Debora?
Por quê? Por quê? 
-Eu quero que você pule em mim e me morda.  - ordenou ele uma noite quando chegaram ao local de seus treinamentos.
-O quê?  - perguntou Debora confusa e assustada.
Era a primeira vez que ele lhe dizia algo assim.
Como ela deveria interpretar isso?
-Pule em mim e me morda... Isso é, se conseguir.  - respondeu ele dando aquele seu sorriso sarcástico de sempre.
-Mas por quê?  - perguntou Debora dando um passo para trás.
-Por que, por que, por que... É tudo que você sabe falar? Vamos, faça o que estou te mandando.  - ordenou ele fingindo estar irritado, mas não conseguia esconder seu sorriso diante a expressão desconfiada de Debora.
-Mas o que eu estarei aprendendo se eu simplesmente pular em você e te morder?
Marcus rolou os olhos e a puxou pela mão.
-Fique parada, não se mexa, nem respire.  - disse ele seriamente, mas Debora sabia que ele ia aprontar alguma coisa, seus olhos estavam divertidos, ela já o conhecia.
Ela ficou no lugar onde ele a mandou ficar e esperou, Marcus desapareceu de sua visão e quando Debora menos esperava, ele pulou em suas costas, mas ela, já sabendo o que ele ia fazer, se abaixou e ele pulou por cima dela, parando em sua frente. Debora riu.
-Eu sabia o que você ia fazer.  - disse ela presunçosamente, rindo dele.
Marcus deu nos ombros e desapareceu novamente e quando Debora percebeu, ela já estava jogada no chão, com ele em cima dela, seus rostos a centímetros de distância um do outro e ele sorriu.
-Isso não vale, você roubou... - reclamou ela tentando se soltar, mas Marcus estava segurando seus pulsos em cima da cabeça, prendendo-a contra o seu corpo.
-Agora eu vou ter que te morder.  - disse ele seriamente e levou sua boca para o pescoço de Debora e por um instante ela pensou que ele iria realmente mordê-la, mas ele tocou seu pescoço de leve com seus lábios em um beijo doce e gentil.
-Agora eu te matei. - disse ele sorrindo, ela pode sentir os dentes dele na pele de seu pescoço.
-Bem, você já me matou antes, então...
Esse comentário de Debora fez com que Marcus ficasse sério novamente e ele levantou, dando uma mão para que ela também levantasse, e ele ficou de costas para ela.
-Você tem que aprender que não pode ser pega desprevenida, que quando menos se espera, outro vampiro pode pular em você e sugar todo o seu sangue e esse será seu fim.  - disse ele ainda de costas para ela, falando como um professor que explicava uma nova matéria, sua voz estava controlada como sempre, muito profissional.
Ela preferia o Marcus que ria dela.
Debora levantou o braço, brincando.
-Hein, Marcus...  - chamou ela e quando ele se virou e viu que ela estava com o braço levantado, ele a olhou com curiosidade.
-O que você está fazendo?  - perguntou ele confuso.
-Eu tenho uma pergunta.  - respondeu ela abaixando seu braço.
-As suas perguntas começaram cedo hoje...  - resmungou ele se afastando para arrumar um equipamento de luta.
-Quando vai ser a minha vez?  - perguntou ela inocentemente, mas rindo.
-Vez de quê?  - perguntou ele ainda prestando atenção total ao que estava fazendo. Ele não sabia o que estava fazendo, não queria olhá-la, não agora, não quando sabia que em seus olhos estavam paixão e frustração enquanto que nos dela só se encontrava diversão. Diversão  inocente. Não a do tipo que vinha brincando com a mente dele nos últimos tempos.
-De te atacar?  - perguntou ela.
-Você quer me atacar?  - perguntou ele virando-se para ela e a encarando.
-Sim... Você já me atacou duas vezes, em uma delas você me matou, então eu tenho que pelo menos tentar...  - respondeu ela dando os ombros ainda rindo.
-Você quer me matar? - perguntou ele se aproximando, seu tom era desafiador, mas Debora percebeu que ele estava se divertindo também. Diversão, apenas diversão.
Inocente era a palavra que ele repetia pra si mesmo enquanto se aproximava, diversão inocente, uma brincadeira.
-Na maioria das vezes.  - respondeu ela com sinceridade.
-Você quer me matar agora?  - perguntou ele se aproximando ainda mais, fazendo com que seus corpos ficassem a trinta centímetros de distância.
-Com certeza.  - respondeu Debora se aproximando ainda mais. Quinze centímetros de distância.
-Pois então tente.  - desafiou Marcus dando um passo para frente, dois centímetros de distância.
Ele estava a encarando, procurando uma resposta em seus olhos.
Ela não sabia a pergunta. Isso também não importava.
Debora aproveitando a distração dele, girou entorno do corpo dele e o atacou por trás, enrolando suas pernas pela cintura de Marcus e apertando seu pescoço com as duas mãos.
Ele prendeu a respiração, mandou suas mãos ficarem longe do corpo dela, mandou seu rosto não ir encontro do rosto dela...
Então ele nem se mexeu, nem por causa do impacto, muito menos pelo peso de Debora, ficou parado ali, esperando que ela descesse, esperando que ela nunca mais desgrudasse dele.
-Eu não vou te matar, seria muito fácil. - disse ela prestes a descer, mas ele segurou as coxas dela, a fazendo ficar no lugar. Ele não estava preparado para deixá-la longe agora.
-Não, me mostre. Como você me mataria?
Suas mãos continuaram nas coxas dela enquanto ela ficava em silêncio por alguns segundo, pensando.
“Demore o tempo que quiser...”
Ele desejou que ela nunca encontrasse uma maneira.
Mas então ela o surpreendeu.
Ela se jogou no chão, derrubando os dois no chão, e o rodeou, ficando por cima dele, da mesma maneira em que ele esteve sobre ela alguns minutos atrás.
Foi um ótimo golpe.
Um ótimo golpe contra o autocontrole de Marcus. Seu desejo era visível.
Ela não via? Ela não sentia o desejo dele contra o corpo dela?
Ela não se importava? Ela iria fazer algo a respeito?
O rosto dela estava tão próximo que o ar que ele inspirava era o ar que saia da boca entreaberta dela.
Se ele levantasse a cabeça apenas dois centímetros, seus lábios encontrariam os dela.
Encontrariam o céu.
Então ele levantou a cabeça no mesmo instante em que ela caiu ao lado dele, se contorcendo de tanto rir.
Ela estava rindo como não ria há tanto tempo, nem se lembrava da última vez que riu dessa maneira, de uma forma leve e prazerosa, onde as risadas não soavam de maneira falsa e forçada.
-Você me cobrando atenção quando está completamente fora do ar, que belo exemplo Marcus! - debochou ela e ele se sentou, tanto porque ficar deitado no chão não era muito bonito para um Instrutor, quanto para disfarçar o desejo que sobressaia pela calça.
E riu também.
Riu porque ela estava certa, riu porque ela estava rindo, porque isso era maravilhoso, riu porque ele era um idiota, riu porque isso não era nenhum pouco engraçado.
Debora reparou que a risada dele, uma sinfonia perfeitamente ensaiada, invadiu todo o campo de treinamento e ela acabou admirando o rosto feliz de Marcus.
Ele não era tão bonito quanto Viktor, mas ele era mais bonito do que qualquer humano, a beleza de Viktor era intocável e inatingível, mas a de Marcus era visível e era tocável, e seu sorriso brilhante era contagiante e tranqüilizador.
Suas feições eram um pouco mais duras que as de Viktor, e seus olhos eram bem mais escuros, de um verde folha-molhada.
Ela voltou a pensar em Viktor.
Durante semanas não viu Viktor e era estranho, pois sentia falta dele, mas como poderia sentir falta daquilo que nunca teve ou sequer conheceu?
É, ela o conheceu e os dois trocaram meia dúzia de palavras, mas mesmo assim ela sentia como se precisasse vê-lo, como se tivesse necessidade dele. E isso só não era novo, como também era assustador, parecia que alguma força que emanava de Viktor a puxasse para perto dele.
Sim, isso era muito mais assustador do que fascinante, mas ela se encontrava pensando nele e estava começando a acreditar que aquilo estava virando obsessão.
Mas ela realmente se importava?


Em uma das noites, teve uma grande festa na mansão dos Burns, e Debora estava realmente curiosa para saber o que vampiros faziam em festas.
Eles dançavam?
Eles bebiam sangue em garrafas como se fossem bebidas alcoólicas?
O que eles faziam?
Ela perguntou para Marcus umas duzentas vezes até ele contar que não gostava desse tipo de festa e talvez ela pudesse também não gostar.
-Mas por que você acha que eu também não vou gostar? Não sei que temos muitas coisas em comum...  - desafiou ela quando estavam sentados no chão do campo de treinamento, ela nunca se sentia realmente cansada, mas não queria passar todo o tempo que tinha treinando lutas ou qualquer coisa que Marcus tentasse ensiná-la.
-Você se lembra de quando eu disse que você entraria em um lugar onde nenhum humano jamais entrara?  - perguntou ele não fazendo esforço para esconder seu tédio.
-Sim... E?  - perguntou ela ficando ainda mais curiosa, mas não sabia o que uma coisa tinha a ver com a outra.
-Eu menti.  - respondeu ele seriamente. Sua voz grossa parecia estar um pouco mais rouca do que o habitual e mesmo que aquela mentira não fosse A MENTIRA, Debora ficou irritada.
-Por que você mentiu? O que uma coisa tem a ver com a outra? Dá para falar de uma vez ou eu vou ter que ficar arrancando palavra por palavra da tua boca?  - surtou ela muito irritada, mas não sabia por que exatamente estava brava.
Era por que Marcus mentiu para ela?
Claro que não...
Era por que Marcus não queria contar o que realmente acontecia nessas festas?
Talvez...
Era por que ela estava muito curiosa e todo aquele suspense todo estava a dando nos nervos?
Com certeza!
Apesar que a primeira opção ficou martelando em sua cabeça e ela não entendia porque ela estava levando tão a sério o fato de Marcus ter mentido para ela.
-Muitos humanos já estiveram aqui, mas nenhum deles saiu.  - respondeu ele simplesmente, ignorando a irritação de Debora.
-Não saiu?  - perguntou ela confusa.
-Nessas festas, os humanos são como prato principal de um jantar.  - disse ele com uma expressão estranhamente vazia.
-Ah! Como se você não caçasse humanos, Marcus... É meio hipócrita de a sua parte fazer caso por isso...  - disse Debora um pouco desapontada por essa informação.
-Você ouviu o que eu acabei de dizer? Vampiros vão à cidade, escolhem os ‘melhores humanos’, aqueles que são mais bonitos, ou aqueles que possuem um tipo de sangue único, e os trazem para cá. Nenhum desses humanos sabe onde está indo, ficam até lisonjeados acreditando que foram convidados para algum tipo de festa secreta, mas quando chegam aqui...
Marcus não terminou de falar, mas Debora sabia o que ele iria dizer:
“Mas quando chegam aqui, eles morrem.”
Debora demorou um tempo para processar tudo que tinha ouvido de Marcus e se sentiu mal por ter o chamado de hipócrita, o que acontecia era horrível...
Apesar de ser tentadora a oportunidade de poder beber sangue direto de uma veia humana, ela nunca tinha feito isso e apesar de parecer repulsivo ou nojento, era de sua nova natureza que ela o fizesse, ainda mais quando isso podia ser tão absurdo de sua parte ter chamado Marcus de hipócrita quando ela estava quase se esquecendo de sua humanidade.
-Eu já me alimentei de pessoas muitas vezes, já matei muitas pessoas, Debora... Não, não me arrependo, isso faz parte da minha natureza, mas esse tipo de ‘festa’ me dá nos nervos, eu ainda tenho humanidade apesar de séculos de vida e estou decepcionado.  - sussurrou Marcus de uma maneira que Debora nunca tinha o ouvido falar.
-Decepcionado?
Ela não entendia o que ele queria dizer.
-Sim...  - respondeu ele ainda sussurrando, ele estava olhando para o chão, sua cabeça baixa.
-Decepcionado com o quê?  - perguntou Debora quase irritada por ele estar a fazendo ter que perguntar tudo para que entendesse.
-Com você.  - disse ele a olhando nos olhos.
Debora sentiu um soco invisível atingir seu estômago e ficou sem ar.
Por que a opinião de Marcus importava tanto para ela?
Do que ele estava falando para começo de conversa?
-Por quê?  - conseguiu perguntar ela depois de alguns segundos para se recuperar.
-Porque eu acreditei que você ainda tivesse humanidade.  - respondeu ele sem hesitar, Debora se encolheu com a hostilidade de suas palavras e sentiu uma vontade estúpida de chorar.
Ela estava irritada, muito irritada, então se levantou e deu as costas para Marcus.
-Debora! Debora! - chamou Marcus indo atrás dela, mas ela apenas o ignorou.
Mas Marcus era mais rápido do que ela, e já estava em sua frente a impedindo de passar.
-Debora...  - pediu ele quando ela não estava o olhando nos olhos.
-Que foi?  - perguntou ela irritada o encarando agora.
-Eu não queria dizer aquilo... Desculpa... Eu só estou estressado...  - pediu ele com aqueles olhos verdes inocentes que Debora quase não resistiu, quase.
-Eu não posso perdoar você, Marcus.
Ele a olhou preocupado, triste, cansado, longe dali.
Ela não se importou, ela queira machucá-lo, ele havia a machucado.
E não, ela não estava exagerando.
-Porque perdoar é coisa para humanos!  - respondeu ela frisando a palavra ‘humanos’, conseguindo passar por ele e desaparecer e ele não foi atrás dela.
Não dessa vez.
Não durou muito tempo sua decisão e a encontrou sentada num grande sofá em uma das muitas salas da Mansão Burns, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, – ele ainda não sabia o que poderia dizer – Viktor apareceu e roubou sua oportunidade.
Até agora nada fora do normal.
- Está animada com a festa que teremos hoje?
E ela sorriu para ele. Para ele.
Como Viktor tinha tanto poder sobre Debora que até conseguia fazer com o humor dela melhorasse?
Isso frustrava Marcus, ela estava de mau humor por causa dele, por causa dele. Argh!
-Festa é sempre festa, e eu adoro.  - respondeu Debora sorrindo a Viktor que parecia não estar prestando nenhum pingo de atenção no que ela estava dizendo. Ela não percebia. Ela não percebia nada.
-Você acompanhará meu irmão hoje à noite?  - perguntou Viktor lançando um olhar mortal e presunçoso a Marcus.
-Com Marcus?  - perguntou Debora demonstrando estar muito desapontada e irritada.
O tom que ela usou fez com que Marcus quisesse que aquele olhar de Viktor realmente o matasse.
-Sim... Meu irmão tem todo o direito de estar acompanhado de uma linda mulher.  - respondeu Viktor soando doce e animado, quando Marcus sabia na verdade que tudo que ele queria é humilhá-lo ali, bem na sua frente.
Palmas irmãozinho, você está conseguindo.
Debora ficou muda, como se esperasse que Viktor dissesse alguma coisa, que a pedisse para ir com ele ou alguma coisa do tipo.
Marcus quis fugir.
-Debora... Você acompanharia Marcus essa noite à nossa festa, por mim?  - implorou pegando a mão dela, e ela não se afastou como ela sempre fazia quando Marcus a tocava, ela até se aproximou mais dele.
Marcus ainda queria fugir.
-Por mim?  - repetiu Viktor suplicando usando seu poder de sedução que dava náuseas a Marcus.
-Claro, como você quiser...  - respondeu Debora alta, parecendo uma pessoa hipnotizada ou drogada diante de uma pessoa ilustre ou de algo divino.
“Debora, você pularia de uma ponte por mim? - Claro, como você quiser.”
Marcus queria sair correndo e nunca mais voltar.
Não que pular de uma ponte fosse matá-la, mas ele sabia que o quer que fosse que Viktor pedisse para ela nesse momento, ela faria.
E sorrindo ainda por cima... Sorrindo!
-Ótimo!  - exclamou Viktor soltando a mão de Debora, que parecia ser acordada a força de um sonho na melhor parte. Um sonho com Viktor.
Marcus queria sair correndo e nunca, nunca mais voltar!
-Agora você é o responsável pelos casais da festa, Viktor? Que profissão interessante...  - comentou Marcus não conseguindo esconder sua raiva, raiva por Viktor, raiva de si mesmo, raiva do mundo... Sim, ele era exagerado e não, ele não estava exagerando.
-Ah! Marcus, Marcus, Marcus... Não negue que estou lhe fazendo um favor. - disse Viktor simpaticamente, dando um tapinha (muito mais forte que o necessário) nas costas de Marcus.
-Não preciso de favores seus, Viktor.  - respondeu Marcus rispidamente, retribuindo o tapinha ainda mais forte nas costas de Viktor que apenas sorriu e saiu pela porta, como se só que ele estivesse procurando fazer por ali fosse irritar, humilhar, fosse fazer qualquer coisa para perturbar seu irmão.
Ele sempre conseguia. Ele respirava.
Marcus e Debora ficaram parados em silêncio por um tempo, ela ainda estava brava com ele, mas a pedido de Viktor ela teria que ir a festa com ele, quando ela queria ir com Viktor na verdade.
Ela queria fazer qualquer coisa com Viktor.
Marcus abriu a boca para falar alguma coisa, mas antes que ele pudesse, Debora já estava subindo as escadas, ela não queria falar com ele e nem sabia por que estava tão brava assim, na verdade, ela ainda estava irritada pelo fato de ele ter dito que estava decepcionado com ela por ela ter perdido sua humanidade.
Mas o que isso significa?
“Perder a humanidade”?
E desde quando o que Marcus pensava era tão importante assim para ela?
Ah! Ela estava tão irritada.
E ainda por cima, Marcus também não parecia estar nada a fim de ir com ela a qualquer lugar, o que era ótimo, pois ela não queria a nenhum lugar com ele também.
Queria?
Ah! Ela estava tão confusa!
-Debora você não precisa ir comigo senão quiser.  - disse Marcus que estava a esperando na porta de seu quarto.
Como ele podia ser tão mais rápido do que ela?
Isso só deixou-a ainda mais irritada.
-Me deixe passar.  - mandou ela o empurrando, mas ele nem se mexeu.
Debora queria matá-lo e dessa vez de verdade.
-Na verdade, eu até tenho outros planos para hoje à noite.  - continuou ele como se Debora nem tivesse o empurrado.
-Ótimo, se divirta então.  - desejou Debora de má vontade voltando a empurrá-lo para passar pela porta e o deixando plantado ali do lado de fora.


 
Depois de ter se alimentado, ela voltou para seu quarto e encontrou um pacote em cima da cama com um bilhete vermelho-sangue do lado de fora.
Ela pegou o bilhete e leu as palavras escritas à tinta:

“Matarei sua curiosidade, você saberá o que realmente acontece quando os vampiros resolvem dar uma festa. Esteja preparada.”
M.B.
Ela abriu o pacote e encontrou um vestido preto longo com um grande decote na frente, deixava seu pescoço bem exposto. Fazia sentindo, ela pensou, vampiros e pescoços expostos.
Fazia?
Ela descobriria e sim Marcus, ela estaria preparada.
Era isso que ela acreditava.
Ah! Ela estava tão enganada!

Capítulo Sete


• Capítulo Sete •

Vampiros tomam café-da-manhã?

-Debora, está acordada? - perguntou Marcus batendo na porta, como não ouviu nenhuma resposta entrou.
Ela estava deitada na cama, o fino lençol branco enrolado em seu corpo e sua respiração estava devagar e profunda, estava dormindo tão profundamente que Marcus não quis acordá-la e ficou ali, a admirando como se ela fosse um anjo, como se ela fosse a única coisa que o mantivesse vivo, ou qualquer coisa que ele estivesse.
Era possível uma pessoa que ele mal conhecia de verdade ser tão importante para ele?
Era possível ele sentir essa necessidade de ter alguém por perto sendo que ela já estava ali, a poucos metros de distância?
Então por que tudo que ele mais queria era chegar ainda mais perto?
Ele estava tão distraído em seus pensamentos enquanto olhava para Debora que nem percebeu que ela não estava mais dormindo.
-O que você está fazendo?  - perguntou ela com a voz sonolenta, mas ela parecia estar irritada ou desconfiada, Marcus nunca conseguia ter certeza de como ela parecia estar.
Daria tudo para poder estar na cabeça dela, saber seus pensamentos, estar dentro de seu coração, conhecer seus sentimentos.
-O que você está fazendo aqui? - perguntou ela de novo e ele saiu do devaneio romântico e bem brega em que estava.
-Vim acordar você, mas você estava dormindo tão profundamente que me deu pena acordá-la. - respondeu ele gentilmente dando seu sorriso mais encantador, seu sorriso nem pareceu abalar Debora e ele não sabia por que se sentia tão frustrado por causa disso. Na verdade sabia sim.
-O que você queria? - questionou ela se sentando na cama, seu cabelo estava todo embolado e ele conteve a sua mão que estava prestes a colocar cada um dos fios no lugar certo.
O que ele queria mesmo?
Ela queria mesmo ouvir sua verdadeira resposta?
-Marcus? - chamou ela ficando impaciente.
-Desculpe, ainda estou dormindo. – E sonhando com você -  Vim te avisar sobre mais uma de nossas tradições aqui em Burns.
-E qual é? Nada de ter que tirar a roupa dessa vez, não é? - ela parecia assustada, mas a idéia não era tão ruim assim... Na verdade a idéia era maravilhosa...
Foco Marcus, foco.
-No décimo quinto dia de cada mês, nos reunimos com o Líder para um café da manhã.
Isso era muito patético, assim como todas as outras tradições mantidas por seu irmão.
-Café da manhã... E por que eu tenho que ir? Por acaso todos os vampiros daqui vão?
Ela não parecia como se não quisesse ir, parecia até animada, mas teimosa como era, Marcus sabia que ela tinha que perguntar.
-Você está morando aqui na Mansão Burns e todos que moram  aqui vão. Não é um convite Debora, é uma obrigação.
Ele não iria explicar pra ela que o caso dela era diferente, que quando um vampiro era transformado ele não ficava na casa do Líder como ela, esses vampiros-novos eram mandados para uma casa ali no clã que era mais como um abrigo, uma “escola”.
E ela não precisava saber também porque o caso dela era diferente.
Ainda não.
-E o que se faz num café-da-manhã-de-vampiro sendo que vocês não comem?
-Bom... Nós tomamos sangue em xícaras e ficamos na mesa por um tempo, conversando como toda família.  - respondeu ele sorrindo, seus olhos brilhando enquanto observava o rosto de Debora.
O rosto dela já era branco, mas suas bochechas tinham cor quando ela era humana e sua palidez atual conseguiu deixá-la ainda mais bonita, o que dava contraste com seu cabelo preto que ia até a metade de suas costas.
-Isso parece tão humano. - comentou ela, assim como ele, ela tinha grandes olhos verdes, só que os dela eram de um verde escuro, e suas iris eram de um dourado claro, seus olhos eram lindos. 
-Nós ainda temos muitos hábitos humanos, e sentar a mesa e conversar é um deles. - respondeu Marcus omitindo mais coisas, como o fato de que quando ele e seu irmão estavam no mesmo cômodo da casa, “conversar” não era bem o que eles faziam.
Usar a palavra “estrangular” talvez fosse mais apropriado.
-Nós humanos sabemos tão pouco sobre vocês.  - comentou ela parecendo bastante frustrada, mas ela o encarou, seus olhos estavam curiosos, desconfiados, talvez ela tenha percebido que ele estava a encarando, então ele olhou para outro lado como um garoto pego no flagra.
“E por que ela sempre faz isso? Nós humanos, vocês vampiros... Será que ela não percebeu que faz parte do ‘nós’ vampiros agora?”  - se perguntou Marcus irritado.
-Bom, você deveria saber mais... Você já fez tantos filmes e seriados como vampiro ou como caçadora de vampiros. - comentou ele rispidamente, mas se odiando por estar usando esse tom com ela. 
Debora nem percebeu notar.
-Você assistiu aos meus filmes?  - perguntou ela de olhos arregalados por estar surpresa.
“Sim, e muitas e muitas vezes, aliás, eu sei tudo sobre você.”
-Sim, mas eles me parecem tão...
“Toscos, falsos”  - completou Marcus em sua cabeça enquanto procurava por uma palavra não muito agressiva.
-Tão toscos? Tão falsos?  - sugeriu Debora levantando suas sobrancelhas, contendo uma risada.
-Tão distantes da nossa realidade, era isso que eu queria dizer. - corrigiu ele sorrindo. Era assim mesmo que eles, os vampiros, queriam como os filmes sobre eles fossem: falsos, toscos, longe, muito longe da realidade deles.
E eles faziam de tudo para que continuasse assim.



Os dois desceram as escadas juntos alguns minutos depois e foram à sala de jantar, uma sala muito grande com uma mesa para trinta e duas pessoas, onde também aconteciam as poucas reuniões do Conselho que aconteciam em Burns.
O humor de Marcus se tornou negro assim que cruzou a porta.
Viktor, seu irmão psicopata e manipulador, estava sentado à cabeceira, onde parecia um rei. Certo que ele era o Líder de Burns, mas sua postura era como se ele fosse  o Líder de todo mundo, o rei da cocada preta.
Verônica, a Companheira Oficial de seu irmão e também sua ex-namorada, estava sentada à esquerda dele.
Luigi, o cúmplice e melhor amigo de seu irmão, ou melhor, o escravo favorito de Viktor estava sentado à direita deste.
Exatamente como estavam no dia da Cerimônia de Reconhecimento de Debora.
Agora ela podia ver seus rostos, será que ela sabia que eram eles?
Marcus olhou para ela e viu que ela estava olhando fixamente para Viktor, como se anotasse cada um de seus movimentos.
Ele conhecia esse olhar.
Todos olhavam assim para seu irmão, era o “poder” dele, causar fascinação às pessoas, ele aprendeu isso com o pai deles.
Aprendeu muito bem, para infelicidade de Marcus.
Viktor se virou, como se tivesse notado apenas agora a presença dos dois.
-Oh Marcus, você nos honrando com sua presença? A que devemos essa tão brilhante mudança?
-Bom dia, Viktor. Como todos sabem, esse cafezinho de confraternização entre as pessoas da nossa casa é obrigatório, leis do Líder, e quem sou eu para não acatar uma de suas leis? - retrucou Marcus arrastando a cadeira para que Debora sentasse.
Todos tinham lugares marcados, o lugar dela era ao lado de Verônica e o dele ao lado de Luigi, do outro lado da mesa havia outros vampiros que assentiram para Marcus quando ele sentou. Eles eram os empregados de mais alto escalão do clã, vampiros que Viktor nunca dirigia a palavra mesmo estando sentado a poucos metros de distância, exceto para dar-lhes ordens ou reclamar de seus serviços.

Um mordomo fez as apresentações à Debora, já que ela era uma cara nova ali na mesa, ao ouvir que Verônica era a “Companheira de nosso querido Líder”, ela fez um grande esforço para não demonstrar sua frustração diante de todos.
Viktor era comprometido... Mas que surpresa era essa?
Com um rosto como aquele, com todo aquele poder, como podia não ter pelo menos quinhentas mulheres atrás dele?
Mulheres humanas e vampiras.
E coloque alguns homens na lista.
Mas Verônica até parecia ser simpática, tinha um lindo sorriso que cativava todos a sua volta, mas Debora já a odiava.
Como não odiar alguém tão bonito?
Ela reconheceu Luigi mesmo sem ter visto o rosto dele aquele dia, o dia de sua Cerimônia, e quis lhe dar um tapa no meio do rosto por não ter lhe respeitado, mas acenou com a cabeça apenas.
Educação em primeiro lugar.
Às vezes.
Pareceu demorar uma eternidade até alguns empregados trazerem suas xícaras com sangue.
Ela quase bebeu tudo num gole só.
Vampiros têm etiqueta?
Ela teria.
Às vezes.
Viktor e Luigi cochichavam sobre alguns projetos, Marcus conversava com um vampiro que parecia maior que o Pé-Grande, mas quando Verônica perguntou a Debora o que ela fazia quando humana, eles se calaram.
Debora não podia negar, gostou de receber a atenção do Líder, mas também ficou aflita.
Todos aqueles olhos nela...
Mas muitos anos como atriz mandaram sua timidez para o espaço e ela sorriu quando respondeu que era atriz de cinema.
Luigi gargalhou e Viktor sorriu para Marcus que não tinha expressão nenhuma no rosto. Verônica parecia envergonhada.
-Atriz de cinema... - repetiu Viktor ainda sorrindo para Marcus.
Ela encarou um e depois o outro.
Estavam rindo dela? O que era engraçado nessa profissão? Ela teria que deixar claro que não eram filmes pornôs?
-Meu irmão sempre gostou do mundo artístico...
Comentou ele e Luigi voltou a gargalhar. Verônica parecia querer sumir.
-Cuidado para não se engasgar, Viktor. - disse Marcus rispidamente, Debora o encarou.
O que ela não estava entendo ali? O que ela não sabia? O que ela estava perdendo? Odiava piadas internas.
-Marcus, do que estão falando? - perguntou ela num sussurro, se esquecendo por alguns instantes que mesmo sussurrando todos na sala eram capazes de ouvir suas palavras.
-Não preste atenção ao que meu irmão diz, Debora, realmente não vale a pena. - respondeu Marcus secamente e com ódio em sua voz rouca.
Debora deu os ombros e resolveu deixar pra lá, pelo menos por enquanto.


Viktor começou a observar Marcus e Debora, a maneira como estavam próximos sem se darem conta, da forma em que ele olhava para ela, como se ela fosse sagrada, um cristal prestes a quebrar e ele teria que a segurar em seus braços, e Debora estava tão à vontade com a presença dele que se inclinava para frente para provocá-lo ou deixá-lo irritado, fazendo joguinhos mesmo sem querer, bem na sua frente estava crescendo uma relação entre os dois, uma relação que deixaria Marcus imensamente feliz, isso era inaceitável.
Viktor não deixaria isso acontecer tão fácil assim.
Um Líder precisa de suas horinhas de diversão.
Começou com seu joguinho de sedução, se inclinou um pouco para frente, colocando uma mão embaixo do queixo e apoiando o cotovelo na mesa, prestando atenção a tudo que Debora dizia, – fingia prestar atenção – olhando fixamente para o movimento de seus lábios ao abrir e fechar a boca enquanto falava, seus dedos compridos e finos que descansavam envolta da xícara de porcelana, encarando descaradamente a maneira em que a camisa branca dela desenhava seu corpo curvilíneo, ele viu o sangue dela correr mais depressa por baixo de sua pele pálida e suas bochechas ganharem cor, ela estava excitada porque, mesmo sem olhá-lo, ela estava ciente do olhar provocador dele.
Isso sempre dava certo, qualquer mulher ou pessoa se rendia a ele em instantes, chegava a ser tedioso de tão fácil.
Ouviu os dentes de seu irmão ranger e o rosto dele ficar irritado, sorriu por dentro.
Ah! O doce sabor de causar ciúme!

“Não acredito nisso!” - gritou irritada Verônica por sua ligação de sangue com Viktor.
Ele havia se alimentado dela fazia poucas horas e ela estava bem ao seu lado, ele podia ouvi-la perfeitamente, afinal, o sangue dela corria por suas veias nesse exato momento.
Ele a ignorou. Ela era tão fácil de manipular quanto qualquer outra pessoa, na verdade, era bem mais fácil manipulá-la, ela era obcecada por ele.
E ela sabia que ele sabia disso.
Por isso, saiu da mesa murmurando irritada algumas palavras.
Viktor entendeu algo como:
“Não preciso... blábláblá... aturar... blábláblá... bom dia...”
Nada diferente de tudo que ele sempre ouvia dela.
Viktor perguntou a Debora com sua voz sedutora quando começava o treinamento dela.
Ela olhou questionadoramente para Marcus que respondeu que começaria hoje mesmo.
Viktor brincou dizendo que seu irmão era muito apressado, que gostava de fazer as coisas muito rápido, que às vezes era melhor ir com calma, criar um ritmo até ver onde a pessoa podia chegar.
Ela disse que agüentava.
Ele perguntou como ela preferia.
Ela disse que dependia da situação.
Luigi saiu da mesa sorrindo para seu Líder quando três vampiras vieram procurá-lo para ajudá-las com alguma coisa em algum lugar.
Viktor disse que nunca é bom deixar as mulheres esperando, que elas podem ficar raivosas de vez em quando.
Debora perguntou se ele tinha medo, se ele não agüentava mulheres mais “raivosas”.
Ele disse que, na verdade, adorava.
Marcus já não agüentava mais isso, queria pular em seu irmão, queria sacudir Debora para que ela saísse do encantamento em que estava entrando... Ele queria... Ele queria... Ele queria que ela respondesse essas coisas a ele, que ela flertasse com ele.
Ele a queria para ele.
-Debora, precisamos ir, temos um longo dia pela frente. - disse ele se levantando abruptamente, ela o encarou como se só agora ela se lembrasse que ele ainda estava na mesa.
Ótimo, ele também nem ligava se ela estava ali, ele nem prestava atenção a cada respiração dela, ele nem estava ciente de tudo que ela fazia e dizia, ele nem sabia que ela existia.
-Marcus, vá com calma, deixe a garota respirar um pouco de ar sem que ele esteja infectado com você. Desde o dia em que ela chegou você a esteve rodeando, a seguindo por ai.
“Sim, Viktor. É claro que sim, eu sou o Mentor dela, é isso que eu tenho que fazer.”
Não que esse fosse um trabalho muito ruim, ele tinha que admitir que essa era apenas a desculpa que ele usava para ficar com ela o maior tempo possível.
Todo o tempo possível.
Debora o olhou sem saber o que fazer e ele quis arrastá-la para o campo de treinamento, arrastá-la para bem longe de seu irmão, arrastá-la para bem perto de si mesmo.
Mas não era isso que ela queria, então ele disse que estaria a esperando lá fora quando ela saísse.
Quando ela quisesse procurá-lo, ele estaria a esperando. Quando ela se lembrasse que ele existia, ele estaria a esperando. Ele estaria a esperando sempre.
Marcus, desde quando você se tornou tão dramático? Desde quando se tornou tão idiota?
Ele não sabia e continuava sem saber quando já estava lá fora.
Quando Marcus saiu, Viktor mudou de tática, agora era a hora de interpretar o menino carente, aquele menino que o irmão mais velho – Marcus – nunca deu atenção.
-Estou tão cansado disso, da minha relação com Marcus. Eu queria tanto poder contar com ele, poder pedir ajuda a ela quando for preciso. Ele é meu irmão mais velho, eu o considero como um pai, mas ele é tão vaidoso, tão orgulhoso, não superou não ter sido escolhido para ser o líder, ele não superou. - lamentou Viktor parecendo estar tão triste e desapontado que Debora sentiu vontade de abraçá-lo e dizer que tudo ia ficar bem, exatamente como ele queria.
Depois de transformar seu irmão num egoísta rancoroso, era a hora de interpretar o  sedutor indiferente.
Então disse que tinha que resolver uns problemas, que estava sempre muito ocupado – ah! Como é difícil ser um líder – e que eles se veriam por ai.
Beijou a mão dela por mais tempo que o habitual e saiu apressado, antes que ela pudesse dizer alguma coisa.
Deixou para trás uma Debora que suspirava feito uma menina apaixonada, uma menina que já estava mais que atrasada para seu primeiro dia de treinamento com um instrutor que sofria de transtorno bipolar.