quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Capítulo Seis


 • Capítulo Seis •

-Raika, Raika! - comemorou Debora enquanto entrava em seu apartamento e era recebida por sua cadela de um metro de altura como numa festa de boas-vidas.
Pois é, ela havia conseguido.
Depois de tanto, tanto insistir, ela conseguira convencer Marcus a levá-la para a cidade.
Marcus não sabia por que ele havia concordado com isso, bem isso também não importava.
-Não podemos demorar. - avisou ele fechando bem a porta e as janelas grandes da sala. Nenhum cheiro humano poderia entrar, ele sabia que Debora não resistiria...
Ela se recusou a se alimentar antes de sair, e todo o sangue que ela havia bebido na Cerimônia de Reconhecimento estava agora correndo pelas veias de seu irmão.
Não, ele não iria pensar nisso agora.
“Coisa nojenta” foi como ela havia descrito beber do sangue de uma bolsinha de doação.
-Não podemos demorar. - repetiu ele já que ela não havia dado a mínima atenção a ele.
Ela rolou os olhos e o ignorou mais uma vez.
Será que ela não entendia que ficar na cidade agora era perigoso para muitos humanos?
E mais importante... Que era perigoso para ela?
Porque ele sabia, ah! Ele tinha certeza de que se ela se metesse em problemas, leia-se: se ela não se alimentasse de maneira adequada, se deixasse vestígios da existência deles para o mundo humano, seu irmão, o Líder muitíssimo correto de Burns, iria causar a maior confusão por causa disso, ela seria destruída sem piedade.
Não, ele também não iria pensar nisso agora, nem nunca, jurou ao vazio de sua mente.
Raika pulava enquanto a sua dona passeava pela sala tão familiar, tão estranha por causa de seus olhos novos...
Fazia quanto tempo que aquela marca estranha estava desenhada no teto?
Fazia quanto tempo mesmo que não vinha ao seu apartamento, ao seu lar?
Porque o simples fato de chamá-lo de lar parecia errado?
Se jogou em seu sofá e adorou a falsa ilusão que invadiu sua mente:
Talvez, se fechasse bem os olhos e ordenasse a si mesma a acordar, todos últimos dias sumiriam e evaporariam pelo ar como poeira, como sonhos. Talvez...
Mas se recusou a fechar os olhos, era inútil.
-Acho que me ouviu quando eu disse que não poderíamos demorar. - repetiu Marcus e Debora lhe lançou um olhar mortal.
-Acabou de anoitecer, Marcus... Usando suas próprias palavras: “Estaremos seguros até o sol resolver aparecer”... Eu calculo isso como umas oito, nove horas... - respondeu rispidamente e ele se recusou a retrucar, era inútil...
Será que ela não percebia que quanto mais eles demorassem, que quanto mais a noite se aprofundasse, mais ela estaria faminta, sedenta?
Droga! Porque ele a trouxe aqui, sabendo que isso aconteceria?
Porque infligiu as próprias regras ao trazer um recém-transformado para a cidade antes de ter iniciado seu treinamento?
Porque ele se meteu nessa bagunça?
Por que ele concordou em dar a ela aquilo que ela queria?
Ah, é... Ela tinha um certo poder sobre ele, se lembrou Marcus. Não que ela soubesse, não que ela percebesse, não que ela se importasse.
Debora encarou o maço de cigarros que ficava na mesinha de centro da sua sala e se perguntou como seria sentir a fumaça tóxica invadindo seu corpo novamente...
Seria incrível, pensou.
Marcus já havia lhe dito que agora, seu organismo não sentiria falta de outro tipo de alimento que não fosse sangue humano, sequer água ela precisaria...
Que agora, seus sentidos iriam estar pelo menos mil vezes mais aguçados do que quando ela era humana, que ela poderia desfrutar de cada aroma que estivesse passeando pelo ar...
Era uma pena que seu organismo não fosse aceitar chocolate, ela imaginou qual seria a sensação de sentir cada gosto do doce, meio amargo, viciante...
Seu estômago reclamou e não tinha nada a ver com chocolate, ela sabia...
Num impulso, pegou um cigarro e acendeu, sabia que Marcus estava a olhando com uma curiosidade divertida, mas não ligava.
Uma expressão de nojo estampou seu rosto e Marcus riu alto...
-Pelo visto encontrou outra coisa para descrever como “coisa nojenta”... - debochou ele e Debora apenas resmungou enquanto apagava aquele maldito canudinho.
O gosto? Era HORRÍVEL... Ela podia sentir cada uma das substancias tóxicas que aquela coisa tão pequeninha possuía e era incrivelmente intragável.
Encarou Marcus que ainda ria, pelo menos alguém estava se divertindo.
-Sabe, eu me pergunto se você vai ficar a noite toda ai me olhando, me vigiando... - comentou ela de mau humor fazendo carinho em uma Raika muito feliz.
Marcus se aproximou dela, colocando cada um de seus braços ao lado do corpo dela, a prendendo no sofá e disse a olhando nos olhos:
Seu tom não era nenhum pouco amigável.
-Será que você não percebe o que está fazendo? Que a cada hora que passa sua garganta arde mais e que daqui a pouco só o que funcionará direito em seu corpo será seu olfato detectando cada cheiro de sangue humano espalhado por aí... Ai seu estômago vai se contorcer, sua garganta vai arder, sua boca vai secar e que seus olhos vão ficar cinza e você demorará a se tornar você mesma de novo? Você não percebe que está colocando cada um de seus vizinhos em perigo? Que quando se transformar mesmo, não irá importar se for alguém conhecido, se for um animal, se for humano ou cachorro, desde que tenha sangue e que te satisfaça? Você percebe isso? - questionou ele e ela olhou para Raika...
Sim, sua garganta ardia sim, quase da mesma maneira que ardia quando despertou como vampiro, mas... Ela iria se controlar... Sim, ela iria se controlar, ela podia fazer isso.
Não iria atacar seus vizinhos que mal conhecia, mas que faziam pouco ruído com suas televisões ligadas... Não iria atacar sua cadela, sua melhor amiga... Sua ouvinte de tantas noites de porre e depressão...
Não, ela iria se controlar e depois jogaria isso na cara de Marcus...
Falando em cara, ele estava muito próximo, invadindo seu espaço pessoal de novo.
-E será que você não percebe que tudo que eu quero agora são dois minutos de paz? Você não acha que eu mereço isso depois de tudo que você me fez passar? E não faz essa cara de quem não sabe do que eu estou falando... Sabe sim e se nesse seu corpo de vampiro-sabe-tudo existe um pingo de culpa por ter me tirado do meu mundo, da minha vida, por ter invadido e escrito o meu futuro sem o meu consentimento, saia daqui e me deixe respirar! - mas antes mesmo que ela tivesse terminado seu discurso desabafado, Marcus já havia pulado pela sacada e sumido na escuridão da noite largando um “Boa Sorte” silencioso.
-Ótimo! - agradeceu ela ao vento quando espiou por cima do parapeito da sacada.
Voltou a se jogar em seu amado sofá e a fitar a televisão desligada...
Agora que podia respirar, se sentia sozinha.
Sozinha e com a garganta em chamas.
Se perguntou como seria sua vida daqui para frente, o que mudaria, quer dizer, o que não mudaria, não sentiu medo, não sentiu agonia, não sentiu nada...
Se sentiu vazia e isso sim a assustava.
Quando ela voltaria para seu corpo e começaria a controlar suas próprias ações?
Quando pararia de viver essa experiência extracorpórea?
Precisava de alguém que a abraçasse e a fizesse sorrir de novo, que a fizesse esquecer por apenas alguns minutos de que nada seria igual novamente, alguém que falasse qualquer bobagem e que não tivesse nada, NADA a ver com regras de um mundo novo a qual ela fora empurrada.
Precisava de seu amigo Rodrigo.
Ele sempre a fazia sorrir quando ela reclamava carrancuda de sua vida, o que ela adorava fazer, mais por costume do que por situação, ele a defendia, fazia que ela abrisse os olhos, não passava sempre a mão em sua cabeça, dizia que ela estava errada e provava isso...
Ela o amava, a pessoa que ela mais amava...
Saiu pelo apartamento procurando por seu telefone e discou os números que sabia de cor.
Chamou uma, duas, três vezes e ao ouvir a voz de Rodrigo quase gritou de felicidade.
 
-Alô?
-Rodrigo! - não se agüentou, acabou gritando.
-Debora! –Tinha alívio em sua voz - Onde você se meteu? Estamos procurando por você há dias, até pensei em ligar para seus pais e...
-Rodrigo, vem aqui, eu preciso ver você... Eu preciso de você.  - implorou ela sentindo uma ou duas lágrimas rolarem por seu rosto.
Ele se alarmou com o seu tom de voz.
-O que aconteceu? Aconteceu alguma?Droga, Debora! Me responde...
Como ela poderia dizer por telefone: “Hey, agora eu sou um vampiro.”?
Como ela simplesmente poderia dizer isso em voz alta?
Não, ela não poderia.
-Debora, ainda está ai?
-Sim... Rodrigo, venha...
-Ei, espera... Tenho que chamar a policia, ambulância ou algo assim? - ele estava brincando para aliviar o clima, ela sabia e adorava quando ele fazia isso.
-Não preciso de nada, Ro... Só de você.
E com isso desligou.
Enquanto falava se esquecia da queimação em sua garganta, mas ao ficar quieta, essa maldita dor feito dor de dente voltava a incomodar com toda a força.
Ela foi até a cozinha, queria qualquer coisa que fizesse essa queimação  em sua garganta passar.
Mas ela não sabia se encontraria o que precisava na cozinha.
Ela sabia que NÃO encontraria.
Então ela abriu a geladeira, tirou uma garrafa de cerveja, abriu e bebeu um longo gole e
fechou a geladeira com o pé direito, como sempre fazia.
Só que dessa vez, a cerveja não desceu como devia, nem sequer desceu direito, e  Debora teve que cuspir na pia da cozinha mesmo.
O gosto era ainda pior do que o do cigarro, e aquele liquido gelado desceu como se fosse  uma gosma em sua garganta, ainda bem que tinha uma pia a vista.
Desistiu de tentar enganar aquela queimação na garganta e se sentindo sozinha, foi para  a sala lentamente.
Ligou a televisão, foi trocando os canais, que nos quais só davam comerciais, mas uma  escada que fazia trezentas coisas a chamou a atenção e ela parou nesse canal e  observando essa escada multifuncional. Claro que ela não precisava de uma escada,  agora que ela podia pular de lugares altos e sabe lá o que mais ela podia fazer.
Até que seria legal fazer essas coisas, pensou. Talvez sua vida virasse um filme de ação só para variar do drama repleto de decepções, brigas, sexo e bebida a qual estava acostumada.
Bem, a parte do sexo poderia continuar, ela não reclamaria, afinal, os vampiros não são sexy e blábláblá como todo mundo dizia?
Bom, ela provaria isso pessoalmente.
Quase gargalhou sozinha, pensar em futilidades era melhor do que ficar se remoendo por coisas que não tinham solução.
Nunca fora uma pessoa que concordava com aquilo que a vida lhe dava, não baixava a cabeça e aceitava simplesmente como a maioria das pessoas quando diziam: ”É desse modo que vai ser, aceite isso.”
Não, com ela nunca fora assim.
Talvez seja por isso que tenha afastado tantas pessoas de sua volta, pessoas que não voltariam nem se ela pedisse desculpas, mas na maioria das vezes, ela sabia que não deveria pedir desculpas.
Para que se culpar por aquilo que não fez apenas para não haver conflitos?
Que haja conflitos então!
Mas nem sempre viver em conflito foi o bastante, às vezes era melhor simplesmente fugir, e ela já havia fugido uma vez.
Antes mesmo de Rodrigo bater na porta, ela já sabia que ele estava chegando, pois sua garganta apertou como se alguém estivesse a estrangulando, mas ao invés de sentir falta de ar, um ar muito cheiroso, apetitoso e de ensopar a boca invadiu o ar...
Três leves batidas a fizeram despertar de seu sonho delicioso...
“Pára! É Rodrigo, droga!” - gritou para si mesma enquanto abria a porta.
Foi pior.
O cheiro dele a fez cambalear, só que ela recuperou o  equilíbrio em um milésimo de segundo que Rodrigo nem tinha como perceber, mas ela segurou a mão dele como apoio.
-Debora, você está bem? Está pálida... - quase que ela riu, seria engraçado em outra hora dizer para um vampiro que ele estava pálido.
Mas ela o abraçou forte, trancando a respiração.
Um abraço apertado, mesmo que esse simples abraço custasse uma dor insuportável em sua garganta ou custasse a vida de seu melhor amigo.
Rodrigo meio que arrastou Debora até uma poltrona e a sentou ali.
-Ok. Por onde você esteve durante esses dias?
Seria fácil simplesmente contar tudo, lhe dizer cada novo lugar que conheceu nesses poucos dias, descrever cada pessoa/criatura que encontrou, seria fácil demais... Mas ela aprendeu, aquilo que é fácil demais não é tão fácil assim.
-Rodrigo, essa é a última vez que você vai me ver.
A despedida também não era fácil, mas como ele seria amigo de um... Um vampiro?
-Por quê? Você está indo embora? - ele soava preocupado, muito, muito preocupado.
E se ela contasse?
-Sim, eu tenho que ir embora, as coisas estão diferentes agora, estão meio confusas e eu... Eu já não sei mais o que eu sou.
“O que eu sou” soou estranho e ele notou.
-Como assim o que você é? Do que você está falando?
-Rodrigo. – ela fez uma pausa enorme perto da aflição de seu amigo - Se eu lhe contasse que tudo que você acredita ser imaginação, loucura, maluquice  é real? Se eu lhe falasse que ai fora existe um mundo desconhecido dos humanos, onde há poder, onde há força, onde há imortalidade?
-Tipo o quê? - ele estava fazendo aquele olhar, ela percebeu.
Aquele olhar que você dá aos malucos. Droga!
-Tipo... Vampiros?
Rodrigo gargalhou alto, muito alto, daquela maneira bonita dele.
-É, vampiros...
E Debora sentiu as lágrimas encherem seus olhos e rolarem abundantes por suas bochechas, chorava por vergonha de ver o olhar de pena no rosto de seu amigo, chorava porque o pulso dele estava tão, mas tão perto que era só virar a cabeça e mordê-lo, chorava porque sua garganta doía, chorava porque chorava.
-Acho que você precisa descansar um pouco e, por favor, não chore, não faça isso... - disse ele calmamente secando as lágrimas do rosto de Debora que conseguia ouvir o sangue correr pelo pulso dele.
Ele tinha que ficar assim tão perto?
‘Mas oh, por favor, não se vá para longe’ pedia o vampiro dentro dela.
O vampiro que queria o sangue dele. De Rodrigo. Seu melhor amigo. Humano e apetitoso. Droga.
Debora secou as lágrimas o máximo que conseguiu, ergueu bem a cabeça e passou uma mão pelo cabelo. Tomou fôlego desnecessariamente e disse:
-Eu sou um vampiro agora.
Pronto, viva com isso.
Ela não disse o resto, mas bem queria, afinal, ele era o único ser racional daquela sala que podia viver a partir de agora.
Piadas sobre mortos, é, ela não estava bem.
-É claro que é, até terminar esse outro filme... - respondeu calmamente, fazendo esforço para conter o riso.
Ele realmente achava que ela tinha ficado louca ou tomado alguma coisa pesada.
A primeira opção ela não descartaria assim tão rápido.
-Não, estou falando sério... Eu fui mordida, morta, sei lá! Só sei que me atacaram e eu sou um vampiro, um maldito morto-vivo que quer sugar seu sangue agora mesmo!
Por falar em auto-aceitação.
Ela gritava, já desesperada, e Rodrigo mordeu o lábio.
O que ele poderia fazer? Sua amiga estava louca.
-E não olhe para mim como se e eu fosse louca! - berrou ela por fim e Rodrigo suspirou.
-Debora, eu sei que você está cansada de fazer esse tipo de filme, mas meu bem, pensa bem... É só uma fase, daqui alguns meses você pode arrumar algo bem melhor para fazer, como aquela série adolescente que você fez o teste, vai aparecer, eu sei.
Ela podia ter ficado com a boca fechada, apenas ter dito adeus e nunca mais tê-lo visto, mas era Rodrigo, seu amigo, seu irmão, pai, companheiro, como ela não contaria?
Ah, certo, para que ele não pensasse que ela estava louca.
-Não, não é nada disso. Rodrigo, eu fui mesmo mordida e transformada. Esses dias em que eu passei fora eu estava numa cidade subterrânea onde moram os vampiros. Sim, eles são todos pálidos, sim, eles são todos deslumbrantes e assustadores e sim, eles bebem sangue e é exatamente isso que eu quero fazer agora. Beber o seu sangue. Mas eu não vou fazer isso, não porque eu não queira, você não tem noção do quanto eu quero, mas porque se eu fizer vou estar matando a parte de mim que eu ainda considero humana, eu estaria traindo todos os códigos de amizade existentes e eu estaria... - ela não conseguia mais falar nada, seu corpo tremia e sua voz era de gelo.
Ela estava se transformando agora mesmo.
Rodrigo se aproximou e a sacudiu forte, ela se deixou ser sacudida e voltou a acordar como humana.
Seu autocontrole se esticando o máximo que podia.
-Se controla! Pára de falar bobagens! Deu, antes estava engraçado, mas agora está ficando macabro e sua voz está ganhando um tom todo gélido... Pára! Acabou a brincadeira! - ele parecia assustado.
Se fosse tão fácil assim, se fosse apenas uma brincadeira.
Mas não era, e Debora já estava cansada de bancar a atriz-louca-drogada na frete de seu amigo, que sabia que até ontem ela até podia ser assim, mas não hoje.
Então tudo aconteceu de maneira meio embaçada, ela se deixou ser levada até o banheiro, ficou embaixo da água quente, se deixou ser arrastada até sua cama, se deixou ser coberta por edredons grossos em pleno verão, e não falou nada em nenhum momento.
Rodrigo tinha aquele olhar de pena que as pessoas dão aos perturbados nas ruas que falam sobre fim do mundo, que falam sobre ataque alienígena e coisas do tipo.
Ela continuava calada.
-Vou fazer alguma coisa para você comer... Você está pálida.
Ele já tinha dito isso. Não era mais engraçado. Ela se sentia cansada. Ela queria ir embora sem machucá-lo. Ela queria sua vida de volta. Ela queria vida. Ela queria sangue.

Antes mesmo de Rodrigo aparecer na porta com uma bandeja lotada de coisas apetitosas – para os humanos – Debora soube que ele estava chegando.
Havia um cheiro tão bom no ar, tão hmm... Delicioso... Dava fome.
-O que é isso na sua mão? - perguntou ela com a voz endurecida, estava rouca.
-Eu me cortei, coisa boba. Faca que erra o pão e acerta o dedo, sabe como é. - ele parecia desconcertado pela atenção de Debora em seu dedo. Havia um minúsculo corte no lado de fora dele, mas sangrava. Sangrava. Ela já disse que aquilo cheirava de maneira deliciosa?
-Eu já disse, não foi nada, não vou ter uma hemorragia.
“Reze para que não tenha amigo, seria um desperdício”. - brincou o vampiro dentro de Debora e ela se forçou a olhar para a bandeja que estava agora em suas pernas.
Sanduíches, café, biscoitos...
Fome. Sede.
Olhou para Rodrigo que agora estava apertando o pequeno corte, fazendo com o sangue saísse ainda mais antes de levar o dedo à boca. Ele fez uma careta por causa do sabor.
Debora o invejou. Debora não resistiu. Debora se transformou. Rodrigo se apavorou.
Ela jogou a bandeja longe ao levantar da cama, fazendo com que o café se espalhasse pelo chão de seu quarto, enquanto os pratos e a xícara se espatifavam.
Ela se aproximou lentamente de Rodrigo, ele estava paralisado de choque, mal conseguia respirar, seu coração martelava dentro do peito, filtrando o sangue que seria dela.
Debora colocou seu nariz no pescoço dele inalando seu cheiro e ele se arrepiou e estremeceu.
Quando ela abriu sua boca para que suas presas mordessem o pescoço de seu amigo, alguém a segurou por trás, impedindo seu ataque.
Ela gritou, rugiu, chutou, socou, mas o aperto era mais forte que ela.
-Saia daqui! Saia, agora!  - ordenou Marcus a Rodrigo, ele havia entrado pela sacada e estava segurando Debora, impedindo que ela se mexesse. Era um trabalho fácil para um vampiro “velho” como ele.
Debora se contorcia dentro de seu abraço de aço.
-O que você vai fazer? - perguntou Rodrigo assustado, mas ainda preocupado com sua amiga.
- Ela vai ficar bem, saia daqui, por favor, saia...  - pediu Marcus mais uma vez e Rodrigo saiu correndo do quarto, batendo a porta à suas costas.
-Não! - gritou Debora fazendo menção de ir atrás de Rodrigo, mas Marcus ainda a segurava.
Ainda a segurando, ele mordeu o próprio pulso e ofereceu a Debora seu sangue. Mais uma vez.
-Debora, beba... Não é tão bom quanto o sangue dele, mas vai fazer com que você se sinta melhor... Vamos, você já fez isso antes... Beba...  - pedia ela a oferecendo seu pulso que gotejava sangue.
-Não quero... Eu disse que não faria de novo.
De que adiantava ser teimosa agora? Sua garganta queimava, seu cérebro doía e seu coração estava quebrado.
Esteve a ponto de atacar Rodrigo?
-Mas você precisa... Você quase atacou seu amigo, Debora... Por favor, beba.  - disse ele colocando seu pulso na boca de Debora.
Ela não queria, mas bebeu o sangue de Marcus por alguns segundos, e a cada segundo se sentindo mais calma, melhor, menos morta.
mais uma vez, quando a consciência já tinha a contado o que ela quase foi capaz de fazer.
Ela sabia que Rodrigo estava na sala, sentia sua presença, seu cheiro humano.
-Deve estar em estado de choque, mas está intacto. Cheguei bem na hora. - respondeu Marcus sério, sua expressão estava dura, rígida. Ele parecia magoado e não como se quisesse dizer: ”eu te avisei”.
-Como você sabia?
-Eu não estava longe. - essa foi a única resposta que ela recebeu.
-Obrigada. - agradeceu pela vida de Rodrigo, pelo sangue, por estar perto.
A dor em sua garganta ainda estava lá, mas agora era suportável.
-Seu amigo está lá na sala... Você o deve explicações ou você quer que ele esqueça de tudo?
- perguntou ele ignorando o ‘obrigado’ de Debora, sem olhá-la.
-O que você acha melhor?
Afinal, ele era o Mentor dela, ele que devia responder a essas coisas.
Afinal, ela não sabia o que queria, o que era considerado melhor.
-Vá conversar com ele, Debora... Explique-se, peça para guardar segredo, é o que você esteve tentando fazer a noite toda. - ele parecia cansado, mas sorriu.
Debora assentiu e saiu correndo até a porta, mas deu meia volta e o deu um abraço apertado e foi para a sala.
Esse abraço pegou Marcus de surpresa, e toda a mágoa que tinha nele evaporou, e ele podia se sentir feliz.

Debora saiu lentamente do quarto, como ela iria explicar ao seu amigo o que ela quase foi capaz de fazer?
Ele a perdoaria um dia?
Como ele a olharia agora que ele viu com seus próprios olhos que ela estava falando verdade?
Sim, ela era um vampiro agora.
Sim, ela era um vampiro agora e quase atacou seu melhor amigo.
Ela estava com medo do que ela poderia ser capaz de fazer agora que ela viu que não poderia se controlar, que quando a sede falasse mais alto, ela não conseguiria se controlar e pouco importaria se quem ela estivesse prestes a atacar fosse alguém que ela amasse.
Sim, essa mordida que ela trazia em seu pescoço, agora pálido, era sua maldição.
Ela enfim entrou na sala em passos leves, inaudíveis para os ouvidos humanos de Rodrigo e quando o viu ficou paralisada.
Ele estava sentado na ponta do sofá, encarando a parede branca, mal respirava, completamente imóvel e seus olhos estavam vazios.
Ele estava em choque.
 
Debora saiu lentamente do quarto, como ela iria explicar ao seu amigo o que ela quase foi capaz de fazer?
Ele a perdoaria um dia?
Como ele a olharia agora que ele viu com seus próprios olhos que ela estava falando verdade?
Sim, ela era um vampiro agora.
Sim, ela era um vampiro agora e quase atacou seu melhor amigo.
Ela estava com medo do que ela poderia ser capaz de fazer agora que ela viu que não poderia se controlar, que quando a sede falasse mais alto, ela não conseguiria se controlar e pouco importaria se quem ela estivesse prestes a atacar fosse alguém que ela amasse.
Sim, essa mordida que ela trazia em seu pescoço, agora pálido, era sua maldição.
Ela enfim entrou na sala em passos leves, inaudíveis para os ouvidos humanos de Rodrigo e quando o viu ficou paralisada.
Ele estava sentado na ponta do sofá, encarando a parede branca, mal respirava, completamente imóvel e seus olhos estavam vazios.
Ele estava em choque.
 -Papai Noel? Fada dos Dentes? Coelhinho da Páscoa está nesta festa também. - brincou ela e ele se virou abruptamente para ela.
-Sério?
Ela ouviu uma baixa risada vinda do seu quarto. O filho da mãe de Marcus estava achando engraçado.
Ela ainda queria ir embora.
-Não, Rodrigo, não... Vampiros existem e eu sei disso porque eu sou um...
-Mas como isso aconteceu? Por quê?
Ela não iria explicar detalhe por detalhe, a mente dele não suportaria.
-Fui transformada...
-Por quem? Aquele cara que apareceu no seu quarto? Por quê?
Por quê? Como iria responder se nem ela sabia?
Debora deu respostas vagas a todas as perguntas difíceis de Rodrigo, sabia que não podia responder a tudo, quanto menos ele soubesse, melhor.
Tanto porque ela mal sabia o que responder.
Hei, ela só era um vampiro há três dias.
Rodrigo apenas assentia, como se fosse entender. Talvez ele, assim como ela, também acreditava na teoria do sonho:
Era só fechar os olhos e se obrigar a acordar e ver que tudo não passou da imaginação de seu inconsciente adormecido.
Talvez tenha se passado alguns minutos, ou uma ou duas horas, Debora não sabia dizer, quando Marcus apareceu no corredor e encarou os dois.
-Ele está bem? - perguntou ele como se não tivesse escutado tudo do outro lado da porta.
-Não sei. - respondeu ela porque Rodrigo estava quieto há alguns minutos.
O que se fazia quando alguém entrava em choque? Dava um tapa na cara? Dava uma sacudida forte? Jogava água gelada no rosto?
Marcus se aproximou de Rodrigo que levantou os olhos para encontrar o olhar de Marcus como se uma ordem silenciosa tivesse sido expressada.
-Você entendeu tudo que Debora lhe explicou? - era uma exigência, não uma pergunta. Rodrigo já não piscava.
-Sim.
-Guardará segredo? - outra exigência.
-Sim.  – respondeu seu amigo paralisado, Debora chamou por Marcus.
-Não assusta ele, está bem? Já basta o que fiz! - Marcus a ignorou e continuou com seu contato-visual-hipnose com Rodrigo.
-Guardará segredo como guarda sua vida, o segredo de nossa existência está em suas mãos. E se... - Debora gritou o nome de Marcus mais uma vez.
Ele não podia simplesmente ameaçar seu amigo. Não na frente dela.
-E se tiver coragem para contar ao humano sobre os vampiros, – Marcus riu baixinho, uma risada ameaçadora, debochada. Até Debora estremeceu – Bem, ninguém acreditará em você, será taxado de psicótico, louco.
-Não contarei. - respondeu Rodrigo e Marcus se distanciou satisfeito.
Debora encarou Marcus como se pudesse matá-lo com o olhar, ele se encostou à parede, cruzou os braços e esperou.
Ela desistiu dele e se aproximou de Rodrigo que havia voltado a encarar a parede.
-Rodrigo?
Ele a olhou e... Sorriu.
Sim, ele sorriu, ela quis chorar, porque viu amor, lealdade e sentimentos verdadeiros em seu olhar. Sentimentos verdadeiros e não produzidos por uma ameaça.
Esse era Rodrigo, quando ele amava alguém ele realmente amava e não importava o que esse alguém era ou o que fazia, ou como agia, se era bom ou mal, ele simplesmente amava.
Os dois se aproximaram ao mesmo tempo e se abraçaram forte, bem apertado, e ela trancou a respiração o máximo que pode, não sabia quando o veria novamente, se o veria e isso já doía.
Isso era uma despedia, e quem gosta de despedidas?
Debora amava Rodrigo, ele era seu melhor amigo desde que ela se lembrava, ele a protegia como pai, a ouvia como um amigo e a incomodava com um irmão mais velho, e era isso que ela mais gostava nele:
Ele podia ser qualquer coisa, e o melhor era que agora ele havia se tornado o melhor amigo de um vampiro e parecia bem com isso, o que deixava Debora bem com isso também, pois ela era o vampiro dele.
Ela disse algumas coisas, ele também, ela abraçou sua cadelinha, olhou envolta de seu apartamento, dando adeus a tudo aquilo, aquela vida...
E antes que o sol aparecesse, ela e Marcus já estavam em Burns.

E antes que o sol aparecesse, alguém apareceu no apartamento de Debora e deu a Rodrigo duas opções.
Ele fez sua escolha.
Ele escolheu a opção um.
 




















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